(Minha família, o mundo e eu - Raul Teixeira pelo espírito Camilo)
A Ciência e a Religião são as duas alavancas da inteligência humana: uma revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral. (o Evangelho segundo o Espiritismo, cap. I, item 8)
SOBRE AS MÚLTIPLAS FORMAS DE CRER
Em todas as sociedades humanas é tácita a crença num Poder Superior que superintende a vida planetária.
No decorrer do tempo, na medida em que se foram estruturando no mundo as vertentes das interpretações acerca desse poder Superior, nasceram as religiões formalizadas, institucionalizadas, que passaram a enquadrar no edifico estreito das teologias a crença e a fé naturais dos indivíduos.
A possibilidade de cada um pensar num Ente Supremo com a liberdade da sua maturidade, da sua sensibilidade metafísica e do seu momento existencial, cedeu lugar a determinadas regras que acabaram por empobrecer as expansões da alma humana no relacionamento como seu Criador.
Cheias de determinações castradoras, as criaturas passaram a admitir que o Criador Universal só se encontra em certos lugares e em determinadas horas - as horas dos respectivos cultos - e que, mesmo assim, somente alguns indivíduos ungidos e escolhidos a dedo têm o poder de contactá-Lo e transmitir aos demais, em segunda mão, o que esse Grande Senhor deseja de cada um e de todos.
Esses regramentos teologais das múltiplas religiões tiveram o poder de fragilizar ainda mais o entendimento dos humanos sobre aquilo que podem ou não falar com Deus, pedir a Deus e ouvir de Deus. operadores teológicos variados passaram a ensinar como se devem vestir, o que devem dizer, cantar ou comer, se as almas quiserem se relacionar com o Criador, o que constitui lamentável irrisão.
Aos poucos foi desaparecendo a espontaneidade na relação dos filhos terrenos com o Pai Celeste, e esses filhos passaram a temer o contato com Algo tão inalcançável quanto caprichoso, perigoso, vingativo e apaixonado, segundo as interpretações de várias escolas teológicas. Nasce a tirania das crenças.
A miscelânea que se estabeleceu entre poder político, poder econômico, cárcere, castigo, excomunhões e mortes foi promovendo o gradual afastamento das criaturas do seu Criador, não por causa do Criador, mas pela prepotência daqueles que, ousados e abusados, se interpuseram entre Deus e os homens como insolentes intérpretes de Seu pensamento e de Sua vontade.
PARADOXOS NA RELIGIOSIDADE FAMILIAR
Em razão de tudo isso, cada família que se forma, a partir desses caldos culturais religiosos, estabelece o seu vínculo com a crença em Deus. Determinam o modo como o interpretam e a pauta de costumes, de prática e de preconceitos que acatarão ao longo da sua vida espiritual na Terra.
Como cada indivíduo se acha em nível de desenvolvimento intelectual e moral diferente, não é difícil encontrar casais que despautam no que diz respeito às crenças.
Ainda quando ambos se afirmam no mesmo contexto religioso quase sempre um deles é mais aplicado do que o outro, acarretando dessintonias curiosas na vivência religiosa do par.
Há sempre aquele que se lança à práticas da crença mais aberta e intensamente, enquanto que o outro prestigia, acha bonito ou importante, embora se mantenha mais reservado em suas mobilizações. Ainda existem os que acabam por achar demasiada a atuação do cônjuge nos arraiais da religião, admitindo que é exagerada ou que não preciso tanto assim.
Para muitas famílias, a atividade religiosa termina por ser fator de litígios, de discórdias, paradoxalmente àquilo que se espera de semelhante atividade.
SOBRE A MATURIDADE DA CRENÇA
Uma vez que antropologicamente o indivíduo é crente, e sociologicamente busca aderir ao contexto teológico-institucional com o qual mais se sintonize, será importante considerar que a religião verdadeira de cada pessoa não é aquela apregoada pelo tipo de teologia, de templo ou de prática, mas aquela que a sua maturidade moral consiga administrar.
Assim, vemos pessoas que se dizem religiosas de tal ou qual denominação - algumas de discursos posturais bem exigentes - que levam uma vida de liberalidades, de viciações e outros comprometimentos incompatíveis com o que lhe é proposto pelos cânones de suas crenças.
Achamos gente que participa de sociedades religiosas especializadas em pregar dissensões e preconceitos entre os seus adeptos, levando-os a admitir que são superiores aos demais seres humanos, ou que já se acham com os pés no paraíso, mas que não se deixa levar por isso e viver fraternalmente com todos, mantendo um relacionamento amadurecido, onde esteja.
PARA UMA SUAVE RELIGIÃO FAMILIAR
Se pretendes que em teu grupo familiar haja o norteamento da religião, trabalha para que essa religião não se torne um mero adereço social, um penduricalho a mais nos cabides das tuas experiências.
Religião na família deve significar respeito às diferenças, maturidade relacional e tolerância sem conivência com nenhuma forma de perturbação.
A vida religiosa na família propõe compartilhamento e cooperação em tudo o que configure ação no bem; não comporta depreciação do outro ou zombaria, caso as escolhas sejam diferentes; não admite imposições entre os que se acham aptos a decidir quanto aos caminhos que anelam seguir.
Caso se anseie por iniciar os filhos no pensamento e nas ações religiosas, com vistas ao seu crescimento espiritual, em termos amplos, que se procure uma crença que seja respaldada pelo bom senso e pela razão. Que se evitem propostas que se mostrem infantilizadas em seus conteúdos e que resistam ao questionamento da lógica racional.
Tendo-se em vista que as leis de Deus - que são as leis naturais - abrangem aquelas vinculadas tanto ao mundo físico quanto ao mundo moral, leva teus filhos a confirmar com as reflexões e descobertas científicas as informações metafísicas da crença, evitando que a mente deles seja apinhada de instruções e premissas que os fatos do cotidiano consigam desmentir.
Nada de fixar neles as ideias de punições e castigos para os que analisam e discutem os conteúdos místicos da religião. Nada de injetar na mente deles que jamais os homens penetrarão os mistérios divinos, verificando que tais mistérios somente correspondem aos graus de ignorância da própria humanidade. na medida em que a mente humana se desenvolve e mais se aprofunda nos conhecimentos do mundo e do cosmo, vai diminuindo a dimensão dos suposto segredos.
Nada de mitologias satânicas em figuras monstruosas que mais aturdem a psicologia infantil - e de muitos adultos igualmente - do que lhe imprime amor à vida e reverencia a Deus. Isso seria condená-los à ingenuidade e, certamente, ao fanatismo porvindouro.
Por tudo o que aprendemos com Jesus Cristo, o que mais deseja o Senhor Supremo é que façamos brilhar a própria luz, desenvolvendo os valores da intelecção e do sentimento, uma vez que aquele que pede recebe, o que busca encontra e o que bate vê abertas as portas, seja do que for.
Toda nobre vivencia religiosa do indivíduo quanto de sua família, pois, deve ser capaz de inscreve-lo no rol dos trabalhadores sempre ocupados com a própria conversão à vivencia da lei de amor, na Terra, e envolvidos com tudo o que seja útil e eloquente, situando-os no rumo seguro do inadiável progresso, porquanto o progresso é filho do trabalho, visto que este põe em ação as forças da inteligência. (1)
E, pois, na busca da boa instrução e na prática ampla do amor a Deus e ao semelhante que nos deveremos situar junto com a nossa família, posto que aí estará a nutriente e vigorosa fonte da fé religiosa.
(1) - Kardec, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXV, item 2.
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